Sócia do Marido. Funciona?

Quando pesquisei sobre o tema na internet, só encontrei notícias e textos acerca da funcionalidade prática de um relacionamento entre casais que também são sócios, mas não encontrei nada sobre o sentimento que norteia os cônjuges em uma situação de sociedade empresarial/profissional. Tampouco, o sentimento em torno das esposas profissionais quando se trata de sociedades, cuja “produto” ofertado é o patrimônio intelectual de cada um. No meu caso, sou sócia do meu marido em escritório de advocacia.
Isso pode não parecer uma questão relevante em um primeiro momento, mas garanto que para muitas mulheres, assim como eu, pode ser um problema relativamente sério e com implicações na vida conjugal do casal. Explico.
Recentemente fui abordada por uma colega, que também é sócia do esposo em seu escritório de advocacia, e ela me confessou sentir bastante dificuldade em aceitar, por assim dizer, que o “nome” da sociedade fosse justamente o do seu esposo, acreditando que isso a ofusca como profissional independente, prejudicando sua autonomia e reconhecimento público como profissional.
Na época, disse à ela que isso em algum momento também foi um dilema para mim, mas que eu havia superado quando aprendi a “tirar vantagem” da situação e aceita-la para o meu próprio bem.
Eu disse a verdade à ela. Mas quanto ao fato de ter superado esse sentimento, muitas vezes mesquinho e egoísta, talvez eu tenha me enganado.
Primeiro preciso fazer um breve relato de como me tornei sócia do meu marido (não foi quando me casei rsrsrs), para que possam entender o que quero dizer.
Bem, antes de me formar eu estagiava em um escritório de porte médio e acreditava que após a formatura, iria me estabelecer naquele local. Contudo, por ironia do destino e por razões de ordem estritamente pessoais, eu me demiti, frustrando à todos e à mim mesma, que estava àquela altura, confortável e crente de que estaria empregada após a minha aprovação junto à OAB, mas me ví desempregada, sem reservas e com dívidas assumidas em razão da aquisição do meu primeiro carro. Pois bem, foi nesse cenário que por convite que uma querida amiga me arrisquei como autônoma, dividindo despesas em uma sala comercial no centro da cidade, que por sinal era muito feia e velha, mas que para nós era o que tinha de mais precioso em termos profissionais, com exceção da nossa inscrição na Ordem é claro. Foi nessa situação que fiquei noiva do meu marido que, também advogado, estava estabelecido no escritório onde havia estagiado à vida toda, e em seguida se uniu a um advogado experiente e às vésperas de aposentar-se, passando a seguir também como autônomo, mas, em sociedade.
Após me casar, seguimos atuando cada qual em seu próprio escritório, e lá pelas tantas, cerca de dois anos depois, eu e minha amiga, além de outra que já estava conosco, já havíamos conseguido nos mudar para uma bela sala comercial, em endereço nobre e em um prédio novíssimo. Estávamos muito felizes com a conquista em menos de cinco anos de advocacia.
Eis que meu esposo se separa de seu sócio e me faz o fundamental questionamento: Quer tornar-se minha sócia?
Quantas dúvidas!!!! Será que vai dar certo? Eu vou me tornar economicamente dependente dele? Ele tem mais clientes que eu. Agregarei igualmente? Serei reconhecida pelo meu trabalho e talento?
Os argumentos dele foram simples e objetivos: 1o) éramos casados e ambos advogados; 2o) Não teríamos duas despesas operacionais, mas apenas uma; 3o) atuávamos em áreas afins que se completavam.
Ou seja, obviamente minha decisão foi de aceitar a proposta. Era sem dúvida a decisão mais inteligente.
Entretanto, não demorou para que aqueles questionamentos me atormentassem. Comecei a me sentir “coadjuvante” quando antes eu era a protagonista. E daí vieram os problemas. Pensei em abandonar a advocacia e partir para concurso, incentivada pelo marido e por amigas que estavam nesta “fase”, mas que diferente de mim, queriam de fato o serviço público. Reduzi minha atuação como advogada, e após a maternidade, a me dedicar muito mais à ela do que ao lado profissional. Em compensação, estudei muito e me aperfeiçoei, mas confesso que me isolei bastante profissionalmente. Me deixei apagar.
Quando finalmente resolvi retomar à minha atuação como advogada de maneira interina, passei a buscar desenvolver minhas habilidades pessoais e buscar me valorizar a partir delas. Na prática, foi importante o seguinte:
1o) amadurecimento: só o amadurecimento nós mostra vantagens que antes não conseguíamos enxergar. Ora, se eu aceitei o nome do meu esposo no meu registro, por que não o aceitaria em minha sociedade? Que contra-senso!
2o) confiança: quando resgatei minha confiança em mim mesma, percebi que o fato de meu marido atuar de maneira diferente que eu, não significaria que ele fosse melhor do que eu. E adquirí isso, justamente resgatando lembranças de quando eu atuava autonomamente e vivia muito bem e em constante crescimento;
3o) senso de companheirismo: entender que meu marido não é um “concorrente” e sim um companheiro, e dos mais sinceros e amorosos que uma mulher pode ter, é um exercício constante, pois tenho uma tendência a ser competitiva em demasiado, inclusive com meu próprio marido. Ele não é meu concorrente. Ele é meu aliado!!!
Hoje tenho certeza de que me tornar sócia do meu marido foi a melhor escolha, sem dúvidas. Não vou mentir que em tempo de TPM não retome algumas queixas desnecessárias, mas racionalmente, sei que sim, foi a melhor escolha, e nos completamos como profissionais, assim como casal.
O relacionamento como sócios não é muito diferente de um casal. Ele me chama pelo apelido romântico na frente dos clientes (o que era muito constrangedor para mim antigamente, confesso). Discutimos causas e questões administrativas, no escritório e em casa. Muitas vezes discordamos. Brigamos. Mas resolvemos. Sócios discordam. Casais discordam. É normal.
Temos lideranças diferentes. Eu sou mais aberta a ouvir, a discutir. Ele é mais ditatorial rsrs. Mas, ele é mais flexível quando decide algo, e eu, mais intransigente. Ele mais matemático, e eu mais emocional nas decisões. Ele menos formal, não usa gravata diariamente, por exemplo. Eu, formalíssima. Se fosse homem, usaria terno e gravata até dormindo.
Respondendo então à questão titular, no meu caso funciona sim. Funcionaria ainda melhor se eu fosse absolutamente resolvida em varias questões existenciais como profissional, esposa, mãe e etc., mas em geral funciona. Não nos falta assunto. E não é chato falarmos de assuntos profissionais quando ambos gostamos do que fazemos.
Amar ser sócia do marido, faz parte do amá-lo como tal.

Deixe um comentário